A gente percebe que já se acostumou com a própria instabilidade emocional quando o que era tristeza se transforma em alguma inspiração. Arriscado dizer o quanto improvável isso seria, se eu não fizesse questão de provar dos meus instintos. Normalmente não tenho tempo de desistir das coisas pois elas sempre fazem isso por mim e é, estranhamente engraçado como não me incomodo mais com isso. Talvez eu esteja entrando na minha própria era do conformismo. Mas, eu nunca disse que queria permanecer aqui, letárgica. Me acho agora recolhida no anonimato das palavras vagas da minha boca e com uma cabeça cheia de pensamentos, sob o comando de um processador na garganta que não deixa passar quase nada. Pronto, estou oficialmente indefinida.

Alguém me empresta um pára-quedas?

As coisas dizem pouco sobre mim, na verdade eu que costumo dizer muito sobre elas. Julgo ter os olhos cheios de esperança, de uma cor que ninguém mais possui, e é por isso que mantenho os meus rituais. Por um infortúnio ou dois, venho lutando contra bloqueios. São obstáculos que surgem cada vez que tenho um ideal a atingir, e eles resistem e se alimentam dos meus medos. É, definitivamente o meu ponto fraco. E aí, pra disfarçar os receios, de vez em quando eu queimo. Queimo minhas vontades, esqueço as prioridades e inicio um estágio de pura ficção e procrastinação. E ninguém vê.  Conclusão? Vinte anos de idade e ainda não aprendi a me prevenir do mundo, e ninguém nunca leva isso em consideração.

Decidi, contudo, esperar que a vida me levasse até a próxima estação, até alguma rua, fronteira ou uma nova direção. E ganhei inspiração para enfrentar as entraves que me isolavam e desanimavam as minhas veias. Virou perigoso e arriscado tanto quanto jogos de azar. Mas eu aguentei com pulso firme. E me permiti ir, ser, estar, voltar. Deixar que a vida me presenteasse com novos caminhos. Esperei para poder percorre-los e decifra-los. Conto com uma ajuda genética do meu fluxo sanguíneo que não me deixa sucumbir. E fico alerta, fingindo indiferença, o que me provoca uma agitação nas minhas multidões interiores, mas ainda assim é melhor que a inércia.  A vida, só é de verdade, se conflituosa.

A minha pele já sentiu por si mesma o gosto e o desgosto de tentar um pouco mais, de recomeçar e de viver, simplesmente. Não existe manual pois basicamente, ninguém consegue evitar todas as barreiras no meio do caminho. O que se pode é resistir. Eu demorei pra entender que tudo bem se os dias passam e as mudanças não chegam. E tudo bem também se o tempo nem passar. Eu precisei treinar repetidamente a minha consciência e o meu coração, pra eles finalmente entenderem que: tudo bem que a vida siga. Às vezes os sinos precisam tocar. Tudo bem se tudo mudar e a saudade não morrer, afinal.

E que eu não me perca de vista, nem de sentir.

(Resisistir.)

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