Andei sonhando com um pacote de desejos a realizar e com cirurgias reparadoras. Porém, ao contrário do que a maioria pensa, eu queria mesmo era reparar um lado que quase ninguém vê. É aquela parte que mais me incomoda nos incrédulos e não sei de onde e nem porque surgiu essa vontade abstrata de querer mudar. Maldita a hora em que fui dar tanto valor a essa tal de alma. Acho que já passei do ponto de ser otimista demais com os outros. E ainda assim, ando suspirando por aí, imaginando uma vida sem os estragos de uma visão tão poética minha. Agora mesmo, observo-me com sentimentos vanguardistas um tanto quanto sem limites. Vai ver a novidade dentro de mim seja reinventar o antigo. Era só o que me faltava, um despropósito a mais!

Às vezes me sinto como o mar, que não pára nunca e às vezes como uma lagoa, sempre ali, paradinha. Difícil é conseguir achar o meu meio termo. E não adianta eu querer encontrar o dos outros, muito menos transformar água em vinho a qualquer custo, mesmo que não custe. Desisti de me atrever. Encho-me diariamente com palavras vazias e é nessa mediocridade cotidiana que vou (sobre)vivendo em busca de um ponto de equilíbrio. Me falta tanta paciência pra desordem mental alheia, que penso estar enclausurada em um cativeiro que eu mesma criei pra mim, e eu não estou tentando dizer que isso faz algum sentido. Preferia ser de açúcar do que de carne, só assim a chuva realmente poderia resolver os meus problemas.

Seria mais fácil saber qual o sentido que a vida pretende seguir pra facilitar na hora das curvas, das arrancadas súbitas que ela dá, sem dó. E nas vezes que me pego pensativa demais, ou passando do meu limite de inconformação, corro pra debaixo do chuveiro e deixo a água quente tostar minha pele, só para lembrar que ainda existe tato em mim. E que vivo, e que sinto. É o poder da intensidade. Minhas fugas de nada mais adiantam, elas só me cansam e pressupõem medo, e de medo, eu não me alimento. As coisas por natureza já são tão duras pra mim que não me acho no direito de endurecê-las ainda mais. Exigir o eterno das emoções me parece justo, pois a vida não cabe só na xícara do meu café.

(E que ela seja o meu único vestígio.)

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