Já se fazia tarde quando vagarosamente eu me levantei. Ainda sob as emoções do dia anterior, abri as cortinas para espiar o dia que nasceu. Estava cinzento, sem vestígios nenhum de sol, ao menos não chovia como ontem e a temperatura pareceu-me agradável para continuar de pijama.

Durante meu ritual matutino planejei as possíveis atividades a serem feitas. Talvez um filme de Woody Allen só pra me fazer pensar, coisa que não é preciso muito esforço. Talvez uma corrida na praia para mudar o hábito sedentário que nunca tive ou evitava ter. Pensei, na verdade, em fazer diversas coisas, mas nada fiz. Só acordei. Voltei ao meu quarto meio que aproveitando o silêncio da casa e coloquei uma música que sempre faz eu me sentir plena – in my life – The Beatles -, peguei então, um caderno velho que embora ainda contivesse folhas em branco, estava quase em desuso e comecei a escrever.

Anotei o que sentia sobre a desconhecida dor que tive, sobre a esperança, as dúvidas e angústias sentidas naquele instante. Sabe-se que algo difícil de falar é sobre sentimentos íntimos. Eu consegui transmitir à caneta que minuciosamente conta ao papel, os meus segredos. Somente eles suportam os escarros e lamúrias sem nada dizer ou julgar, apenas esperam cessar a aflição para então se transformarem em picados.

Perdi a concentração ao escutar o som da sirene de uma ambulância, e decidi lavar o rosto na esperança de sentir um pouco de fé no dia, ou pelo menos ânimo. Porém, o que encontrei mesmo dentro de mim foi um vazio no estômago e sede, muita sede. Voltei à cama e respirei devagar. Lembrei que sempre tive uma certa mania de imperfeição. Imperfeição nas ideias, pessoas, organização de objetos e imperfeição no amor. Sempre entendi que para o amor a perfeição é exata, torna-se perfeito o ser amado, porém, enquanto não se ama de verdade, busca-se só por uma perfeição que dificilmente encontraremos. E aí nos contentamos apenas com o imperfeito. O que me faz sentir completa é basicamente um amor imperfeito ao meu conceito e perfeito à minha vontade de amar.

Neste deleite não percebi o passar das horas e perto das seis da tarde ainda me encontrava de pijama e de pernas pra cima. Eu realmente estava confortável. Fechei bruscamente o caderno rabiscado e decidi sair em busca de café e pessoas. Ainda sinto o gosto do café amargo no céu da minha boca, e quanto às pessoas, o que posso dizer é que sempre me virei muito bem sozinha. Dei bom dia para o espelho e voltei a rabiscar, dessa vez no silêncio.

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