Madrugada sem nenhum sinal de sono, 45 páginas de um livro pra terminar e um filme na cabeça pra ver em seguida. A única coisa que me incomoda até agora é não ter com quem reclamar. Verbo este que ponho em prática o significado a cada minuto da minha existência, como se o fato de quase nunca estar cem por cento satisfeita caracterizasse a maior parte do que sou.

O tom da minha pele parece querer chamar mais atenção quando saio às ruas em busca de rostos menos conhecidos. Termino encontrando os mesmos, nos mesmos lugares, fazendo as mesmas coisas. Previsibilidade sem fim.

O consolo em saber que o acaso não costuma me decepcionar vem da espontaneidade com que a minha vida anda seguindo rumo, dá uma satisfação e uma leveza no espírito ao mesmo tempo. E ainda assim, considero a melhor parte do dia aquela que fecho os olhos e tento projetar todos os planos que faço em uma cena: protagonizada por mim e algum outro personagem escolhido a dedo, em uma sintonia perfeita com direito até a trilha sonora. É nos meus sonhos que eu posso enfim sorrir em paz, sem regras, sem controle. Aproveitar até o último fio da minha imaginação num abrigo só meu, sem me preocupar em fazer sentido nenhum.

É nessa dramaturgia de pensamentos que me encontro e me envaideço, o nó que parece laço transformando a lucidez em fantasia. O desejo que supera o medo.

A força dessa vontade que me mantém viva pra perceber a diferença entre o sonho do que teria sido e o real daquilo que é.

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